Autoral
São Pedro de Atacama, Chile
Atacama
Demorei um bom tempo para publicar essas fotos. Foram tiradas numa viagem ao Deserto do Atacama, Chile, em 2015. Os registros foram feitos em filme 4x5, numa câmera analógica (só de fazer essa referência já me sinto mais velho), chamada, pelo tamanho do negativo, de Grande Formato.
Fotografar numa câmera de Grande Formato é desacelerar o tempo. É daquelas câmeras "antigas" em que a imagem é projetada invertida e de ponta cabeça numa base de vidro. O fotógrafo cobre o vidro e se cobre com um pano preto para poder enxergar a imagem que se forma ali. Todos os ajustes demoram e é possível que quando todos os ajustes estejam prontos, a foto já não mais exista. É um processo mágico, o análogo de antigamente ao que hoje se vê nas telas de LCD das câmeras digitais, só que com a lentidão e as incertezas que a fotografia analógica trazia à baila. Ver a foto no vidro não era sinônimo de que ela se concretizaria no filme ou que sairia do que jeito que o fotógrafo a havia idealizado. No mais, cada pacote de negativos continha só dez chapas, tornando a experiência ainda mais rara e valiosa. Escolha bem sua foto e acerte bem os seus ajustes.
Fui para essa viagem com meu primo Estevam, minha câmera, meu tripé e 10 negativos. Quem vai pra um lugar desses e se propõe a tirar dez fotos? Fotografar em Grande Formato tem a virtude de colocar o fotógrafo num certo fluxo de consciência em que o resultado final talvez nem seja o mais importante. O processo exige tanta concentração e é tão prazeroso em si que, saindo a foto "perfeita" ou não, o processo te faz viver o momento plenamente. Vai muito além do registro e da necessidade imperativa atual por alguns likes. É um processo de imersão.
Pois bem, as fotos não saíram perfeitas. Comprei o filme nos Estados Unidos e, ao passar pelo raio X do aeroporto, ele foi parcialmente exposto, o que explica essas três faixas luminosas na foto (uma proeminente e duas mais sútis). Se você tiver o cuidado de se deter em cada imagem, também haverá de perceber vários pontinhos e riscos brancos diminutos em cada imagem, são sujeiras que ficaram no negativo após a revelação (que nome bonito para um processo, não?) e foram transpostos para a imagem durante o scaneamento das mesmas.
Demorei para publicar as imagens na dúvida entre sanar as imperfeições ou abraça-las. Se você tinha alguma dúvida, este não é um post sobre fotografia.